FREQUÊNCIA MENTAL: ATIVA 4.0

Pequenas lembranças noturnas aleatórias de uma infância feliz

Lembro-me quando era criança pequena lá em Arapiraca e sextas à noite meus pais colocavam discos do Belchior e Alceu Valença na vitrola enquanto tomavam cerveja e jogavam buraco, ficava observando o jogo atentamente e escutando aquelas músicas que me embalavam;
Lembro-me do cheiro e do gosto da hora do lanche no colégio, abria minha lancheira branca da Mônica e tinha suco de uva com cream cracker com margarina, forrava a toalhinha que outrora tinha sido um babador e fora cortado pra virar a toalhinha;
Lembro-me da ausência de amigos, das brincadeiras solitárias e da minha dispersão no colégio, que era gritante;
Lembro-me que eu odiava fazer cópia de texto e caligrafia, isso me gerou muitas broncas;
Lembro-me que nos meus aniversários, dias antes minhas tias iam lá pra casa ajudar a fazer os docinhos e salgadinhos, isso era tão legal quanto a festa, pois mudava completamente a minha rotina;
Lembro-me no enterro da minha bisavó, que foi de madrugada, eu via no cemitério umas luzinhas pequenas que piscavam e eu perguntei a minha mãe se eram almas, ela respondeu rindo, que eram vagalumes;
Lembro-me que na casa da minha vó tinha uma porta no móvel da sala onde ficavam os meus brinquedos e na última porta ficava minha almofada, que eu colocava no chão pra ver a novela com minha avó e minhas tias, época em que nas casas só havia uma televisão;
Lembro-me que adorava ir pra Palmeira, pois lá tinha meu primo que era quase da minha idade (dois anos mais velho), era uma das poucas crianças que eu tinha mais contato e nessas idas sempre tinham os adultos tomando cerveja e escutando Altemar Dutra e Nelson Gonçalves, fora aquela mesa redonda que o centro girava e eu achava o máximo;
Lembro-me das inúmeras brincadeiras de escritório na boutique da minha avó, usando os materiais de escritório da loja dela;
Lembro-me que toda oportunidade que eu tinha eu vinha pra Maceió com meus avós, e parecia que quando eu colocava o pé na cidade todas as gripe ou resfriados que eu tava, haviam se extinguido;
Lembro-me que minha tia sempre me segurava sentado no parapeito da varanda, e assim eu conseguia ver tudo lá em baixo;
Lembro-me que em noventa e três após um telefonema minha mãe me disse que iríamos mudar para João Pessoa, perguntando o que eu achava, eu respondi com duas perguntas e uma cara feliz: Lá tem praia? Lá tem shopping?
Lembro-me de entrar com meus pais em uma cabine na Cia telefônica de João Pessoa, para telefonar pros meus avós e mandar notícias, pois naquela época não tínhamos telefone;
Lembro-me que sempre viajavamos  à noite e painho gravava as seleções musicais dele em fitas pra escutarmos, nisso conheci legião urbana, Cazuza, enigma, Enya, fora aquela viagem pra Fortaleza que passamos 12 horas dentro do carro escutando Asa de Águia e Mastruz com Leite, gosto até hoje;
Lembro-me que em Fortaleza na sétima série estudava no melhor colégio da cidade e fazia aulas particulares pra conseguir acompanhar a turma, um determinado dia eu acordei mais pra lá do que pra cá, uma estafa mental galopante, eu vestindo a roupa pra ir à aula de reforço, contando os anos que faltavam pra parar de estudar e milagrosamente a professora ligou desmarcando porque estava doente, como eu fiquei feliz pelo descanso repentino... Hoje com trinta e quatro, vejo que ainda não estudei nem metade do que eu quero.

Reflexões da vida na privada

Reflexão 1)
Quando eu era criança meu avô comprou um apartamento no bairro Pinheiro, lá passava um ônibus chamado "Sanatório" e eu me acabava de rir ao ver o ônibus, pois nunca tinha visto essa palavra e parecia muito com sanitário.... kkk eu besta desde mil novecentos e antigamente.

Reflexão 2)
Tava lembrando aqui da musiquinha de pular corda: "Um homem bateu em minha porta e eu abri, senhoras e senhores ponha as mãos no chão", seria isso um assalto? Fica aí o questionamento!

O outro lado da rua

Lembro como se fosse hoje
Eu indo do outro lado da rua
Em um boteco desses de interior
Comprar um refrigerante para o lanche
O bar possuía três portas altas
Que remetiam à construções coloniais
Era um tanto escuro
Clareado basicamente pela luz de meio dia
Que adentrava pelas três compridas portas
Por acaso era o mesmo bar que às vezes
Meu avô pedia-me para comprar cigarros
Tinha um balcão que ía de um canto ao outro
Algumas poucas mesas e algumas grades pelo chão
Ao que me consta na memória, só pessoas mais velhas o frequentavam
Não sei o por quê, mas este bar ficou gravado
Assim levei meu vasilhame de vidro vazio
E com alguns cruzeiros voltei com ele cheio
Aquele líquido gostoso, gasoso, era felicidade?
Um pouco, mas também conhecida como fanta laranja
O mesma sem estar gelado
Que era pra não gripar
Nisso adiquiri um gosto peculiar
Por apreciar refrigerantes sem gelo
Menos coca, porque aí já é de mais
Foi uma tarde diferente
Com fanta no lanche
Pode parecer pouco ou simples
Mas pra mim marcou a minha mente